QUEM TEM PRESSA COME CRU

Nasceu de 7 meses. Não por má formação ou algum problema na gravidez da mãe. Simplesmente nasceu de 7 meses.

Ótimo ouvinte, logo aprendeu a falar. Mais do que isso, aprendeu a completar as frases de quem conversava com ele. Como uma adivinhação mesmo. Era a pessoa começar uma frase, que ele completava, entendendo do assunto ou não.

Alguns diziam que era um dom. Os mais místicos, que se tratava de uma criança agraciada. Mas em uma coisa todos concordavam: o menino era diferente.

Enquanto ainda era uma criança, achavam fofinho, uma graça. Já quando ele começou a se tornar um homenzinho, as coisas tomaram um novo rumo.

Na escola, era só a professora começar a explicar uma matéria nova, que ele logo se intrometia e teimava em terminar a frase. Não importava se era História, Geografia, Matemática, Química ou Biologia. O menino, agora já um garoto, dava sequência a qualquer explicação. E o mais assustador: ele fazia isso com a maestria que só quem entendia do assunto poderia fazer.

Tamanha astúcia fez com que o garoto se tornasse um símbolo da escola e até da cidade. Chegou a virar ídolo. Até o prefeito chegou a tirar fotos com ele – o que não se faz por uma reeleição, não?

Virou símbolo sexual, tinha filas de garotas querendo conhecer melhor o tal garoto que sabia de tudo. Parecia que a vida estava ganha para ele, até que, à boca pequena, invejosos começaram a dizer que se tratava de um sujeito extremamente inconveniente.

Revoltado, resolveu tirar proveito da fama alcançada ainda na escola. Como sabia que todos na cidade confiavam em qualquer complemento de frase que ele falasse, decidiu então criar novos finais para as histórias que as pessoas tinham para contar. Era só um sujeito começar a sua, que ele logo mudava o contexto das palavras – e também o final. Criava verdades. Transformava padres em pecadores, esposas fiéis em infiéis, bandidos em mocinhos e mocinhos em bandidos. Não adiantava o sujeito espernear, todos na cidade acreditavam nos finais que o jovem inventava.

A cidade, antes tranquila, virou uma confusão. Excomungações, divórcios, prisões indevidas. Parecia que todo mundo tinha o rabo preso, ninguém mais tinha coragem de falar nada. E o garoto ali, rindo sozinho.

Esperto, quando começaram a não mais falar perto dele, ele parou de inventar finais e voltou a completar histórias só com verdades. Mas o mal já estava feito, a cidade já estava de ponta cabeça, de pernas para o ar. E ninguém mais tinha coragem de abrir a boca em sua presença.

A fama de desagradável se alastrou pela região rapidamente e em pouco tempo ele já não tinha com quem conversar, até que decidiu desaparecer para não mais voltar.

A cidade nunca mais voltou ao normal. Ninguém confia no passado de ninguém e até hoje se comenta sobre o inconveniente garoto diferente que, na verdade, de inconveniente não tinha nada. Ele apenas ouvia depressa demais.

Anúncios

É DANDO QUE SE RECEBE

Catarina queria porque queria ser mãe. Desde sempre falava do seu sonho para quem quisesse ouvir. Era assunto recorrente em qualquer uma de suas conversas. Pensava nisso o dia todo. Não conseguia dormir a noite. E quando conseguia, acordava de madrugada com desejos de grávida, mesmo sem estar grávida. Aliás, nunca havia estado.

Por via das dúvidas, deixava a mala da maternidade sempre pronta. Na rua, tinha inveja daquelas mulheres que desfilavam com seus barrigões. E raiva das mães que passeavam com seus bebês. Aquele sonho de menina tinha virado obsessão.

Quando resolveu morar sozinha, foi logo mobiliando um dos quartos com berço, trocador e tudo mais o que tinha direito. E, mês sim, mês não, fazia questão de reformar o quarto do bebê para deixar sempre tudo em ordem.

Esse desejo incontrolável espantava namorados. Homem nenhum queria saber dela. A não ser os vasectomizados. Mas desses aí, era ela quem não queria nem chegar perto. Sua vida girava em torno do bebê que nunca havia chegado perto de existir.

Quando já não aguentava mais o sofrimento pelo sonho não realizado, Catarina resolveu dar para o primeiro que aparecesse. E para o segundo. E para o terceiro. Mas engravidar que é bom, nada.

Pensou em adotar, mas não seria sangue do seu sangue. E deu para o quarto, para o quinto e para o sexto. Depois de cada transa, corria para fazer o teste de gravidez e nada. Nenhum óvulo fecundado.

Deu para o sétimo, para o oitavo, para o nono, para o décimo terceiro, para o vigésimo, para o vigésimo oitavo. E nada da barriga crescer. Pelo contrário. O exercício era tanto, que ela só emagrecia.

Catarina pegou gosto pela coisa. Passou a dar para qualquer um. Não importava se o cara era branco, negro, mulato, alto, baixo, anão, perneta ou banguela. Se era gordo, magro, vesgo, cego, surdo ou mudo. O que importava era dar.

Finalmente ser mãe deixou de ser uma obsessão. Para ela, ser filha da mãe dava muito mais prazer.

O SEGURO MORREU DE VELHO

No dia que nasceu o Pedro, já se sabia que sua vida seria complicada. Prematuro, o menino tão aguardado por todos os familiares, precisou passar seus primeiros 20 dias de vida numa incubadora.

Frágil como poucos, foi para casa sob cuidados extremos. E chegando ao quarto, a situação continuou a mesma: câmeras por todos os lados, isolamento acústico, estabilizadores de temperatura e tudo mais o que poderia garantir a segurança do neném estava à disposição.

O menino cresceu, ganhou peso e foi vacinado contra todas as doenças possíveis. Demorou a entrar na escola para não correr o risco de ser contaminado por qualquer tipo de vírus e não recebeu nenhum tipo de visita durante seus primeiros dois anos.

Aos poucos, obviamente, Pedro foi sendo introduzido à sociedade. Mas todo o medo dos pais foi passado para o garoto como que por osmose e o começo da sua vida social não foi nada fácil.

Tímido e ainda franzino, era alvo de todo tipo de zoação no colégio. “Cagão!”, “seu bosta!” e “pau no cu!” eram os adjetivos que mais ouvia e ignorava. Pedro tinha receio de entrar em conflito e levar a pior.

O percurso casa-escola-casa estava cada dia mais complicado e demorado. Só andava pela sombra e fazia questão de fazer sempre caminhos alternativos para não correr riscos.

Com medo de tudo, o garoto foi se fechando e se isolando cada vez mais. Não tinha amigos, não fazia esportes e começou a faltar na escola repetidamente. Mesmo com apenas 15 anos, ele sabia que alguma coisa precisaria ser feita. E fez.

Indo contra todas as suas convicções, decidiu que a partir daquele momento viveria a vida como a de qualquer garoto da sua idade. Livre e cheia de incertezas.

Os primeiros dias dessa nova fase foram emocionantes. Foi para a escola, fez amizades, aprendeu a andar de bicicleta e até entrou em uma briga depois de ser chamado de “medroso”. Levou uma surra, claro, mas Pedro estava tão feliz com a vida nova, que nem sem importou.

O jovem garoto se sentia curado do trauma causado pelos seus pais ainda nos seus primeiros dias de vida.

Doce ilusão, Pedro.

Algum tempo passou até que um simples tropeção na calçada fez todos os anos de cuidado extremo voltarem à tona.

O garoto, agora adulto, caiu e bateu a cabeça. Precisou ser internado com urgência e chegou a passar alguns dias na UTI. Ao voltar para casa, botou a mão na consciência e entendeu aquele acidente como um recado divino. Ele deveria voltar a se proteger.

Nesse momento, Pedro só tinha uma certeza na vida: não queria morrer e faria de tudo para evitar essa possibilidade.

Mais do que nunca, Pedro voltou a cuidar de si mesmo. Aproveitou que já tinha acumulado um bom dinheiro investindo na bolsa (bons tempos em que tomava riscos sem grandes preocupações) e pediu demissão do seu emprego. Definitivamente, ir todos os dias até o trabalho não era seguro.

Passou a recusar certos convites, deixou de ir à bares com os amigos e parou de beber bebidas alcoólicas. Parou também com a carne vermelha e, claro, passava longe de fast-foods.

Vendeu a bicicleta, aposentou as chuteiras e abandonou o grupo de corrida.

A esta altura do campeonato Pedro já quase não saia de casa. Blindou as janelas, com medo de alguma bala perdida e passou a pedir comida pelo telefone. Fixo, claro. Não queria ser exposto às ondas transmitidas pelos telefones celulares.

Decidiu deixar de comer qualquer tipo de carne, vendeu o fogão com medo de uma explosão e passou a dormir no chão para não correr o risco de cair da cama. Banho, só gelado. Vai que algum fio do chuveiro elétrico estivesse solto.

Pedro já não saia de casa. Não interagia com outras pessoas e não ingeria nenhum tipo de alimento que pudesse lhe fazer algum mal. Estava magro, é verdade, mas estava seguro.

Depois de tantas mudanças, ele finalmente se sentia livre de todos os perigos da vida.

Sentimento esse que o encheu de felicidade e fez com que ele se sentisse o homem mais feliz do mundo. Por apenas algumas horas, é verdade, porque de tanto se proteger de tudo e de todos, seu corpo não aguentou e seu coração parou de bater.

Tinha tanto medo de morrer, que acabou morrendo de medo.

ANTES SÓ DO QUE MAL ACOMPANHADO

Desde pequenas as duas estavam sempre juntas. Onde a Marcela ia, lá estava a Mariana. No carrossel dava briga para saber quem ia sentar no cavalinho rosa e quem ficaria com o azul. No escorregador, a briga era pra saber quem descia na frente. E no sofá, pra saber quem ficaria sentada ao lado da mãe. Mas apesar das brigas, as duas amavam viver juntas.

– Marcela, vai pro banho!

Lá iam as duas pro banheiro.

– Mariana, arruma sua cama, menina!

E lá estava a Marcela ajudando com o trabalho pesado. Não havia cristo que separasse as meninas. Eram como unha e carne e diziam para quem quisesse ouvir que estariam juntas para sempre.

Inseparáveis que eram, na escola até a professora tinha dificuldades para não deixar as duas colarem. Na cantina sempre tinha alguém reclamando que uma das duas estavam furando fila. E nas aulas de educação física, o time delas sempre jogava com uma atleta a mais. Não tinha conversa.

Como todos os alunos do colégio, as duas também fizeram cursinho para entrar na faculdade. Escolheram o mesmo curso e estudaram muito, sempre juntas. Quando saíram as primeiras listas de aprovados, os gritos vindos da casa delas eram muito mais altos. Afinal, de tanto estudar as mesmas matérias incansavelmente, as duas fizeram a mesma pontuação na prova do vestibular. Foram aprovadas com louvor, empatadas em primeiro lugar.

Apesar da felicidade com a aprovação no vestibular, Dona Adriana, a mãe das meninas, quase teve um treco quando ficou sabendo que a faculdade era em outra cidade. Refeita do susto, não teve dúvidas: alugou um apartamento perto do campus para que as filhas pudessem morar. Juntas, como sempre.

Passada a fase dos trotes, veio a primeira festa universitária que elas participariam. Seria na república do Albertinho, o veterano que mexia com o coração das duas. Marcela e Mariana se produziram, passaram batom, fizeram maquiagem, colocaram um vestido provocante e foram para a festa.

O garoto estava adorando a companhia das duas e começou a pensar em um jeito de realizar sua fantasia. Aproveitou que a festa estava animada e com bebida abundante e fez questão de deixar o copo das irmãs sempre cheio. Não demorou muito e as duas, ainda aprendendo a beber, já estavam mais pra lá do que pra cá.

Esperto que só ele, Albertinho ofereceu o quarto para elas descansarem até se recuperarem da bebedeira. Em sua cabeça pervertida, a festa poderia ficar muito mais interessante com as duas nos seus aposentos. Seria a realização de um sonho.

Arrumou a cama, fez com que as duas se deitassem e falou para que tirassem a roupa, para que ficassem mais confortáveis. Ingênuas e alteradas pela bebedeira, não pensaram duas vezes. Albertinho não acreditava no que seus olhos estavam vendo.

Mas tudo começou a dar errado assim que a Mariana pegou no sono. Cheio de tesão, ele não se deu por vencido. Ainda tinha a Marcela.

Depois de muita conversa mole, o beijo não demorou a sair e, no meio de todo aquele fogo, mão aqui, mão ali, ele acabou passando a mão na bunda errada. A menina que parecia desmaiada, acordou sem acreditar no que seus olhos viam. Sua irmã inseparável não poderia ser tão insensível.

– Sua puta!

– Calma, Mari…

– Calma é o caralho, sua vaca!

Mariana não teve dúvidas e partiu para a ignorância. Aí foi soco, chute, tapa e pontapé para tudo quanto é lado. Puxa cabelo daqui, morde dali e quando se viu, as duas já estavam sangrando, gritando que se odiavam e desejando viver sozinhas para todo o sempre.

O Albertinho até tentou separar, mas percebeu que seria impossível. E depois de tanto apanhar no meio daquela terrível briga das duas irmãs, fugiu sozinho e de mãos abanando com apenas uma certeza: tentar comer gêmeas siamesas, nunca mais.

CARA DE UM, FOCINHO DO OUTRO

Desde que nasceu Roseli sempre chamou atenção. Ainda na maternidade já despertava uma certa inveja nas outras mães, enquanto a sua sorria com a beleza daquele bebê que acabara de nascer.

Aos 10 anos de idade, a menina ainda criança começou a ouvir os primeiros assobios dos pedreiros mais assanhados. Assobios que se multiplicaram de acordo com o desenvolvimento da garota.

E tudo o que Roseli tinha de bonita, também tinha de bagunceira. Fato que se comprovou com duas reprovações quase consecutivas, no quinto e no sexto ano do colégio.

Mas o que parecia ser o sinal de um futuro incerto e cheio de complicações foi, na verdade, a melhor obra do destino da garota.

Quando foi cursar o sexto ano pela segunda vez, Roseli acabou caindo na classe do Bruno e do Bernardo. Dois anos mais novos que ela, eram amigos inseparáveis. Daqueles que fazem tudo junto. Inclusive prestar atenção e comentar sobre a menina mais gata da classe.

Ela, por sua vez, enxergava os dois como duas crianças. Bonitas crianças, é verdade, mas apenas duas crianças.

Isso até o dia em que a professora de Biologia decidiu passar um trabalho em grupo para os seus alunos e os três se viram excluídos pelo resto da sala. Bruno e Bernardo por serem os piores alunos da turma e a garota apenas por ainda não ter se enturmado, mesmo.

Grupo formado, os três começaram a conversar. E enquanto os garotos percebiam que Roseli tinha tudo a ver com eles, ela percebia que os dois não eram tão crianças assim. Não é preciso dizer que o trabalho, claro, foi um fracasso total. Mas isso não importava: naquela aula nascia uma grande amizade.

A partir daquele dia os três eram vistos juntos para cima e para baixo. Uma amizade pura, verdadeira. Inseparável. Eram como unha, carne e cutícula.

O tempo passou e a amizade só cresceu. Os meninos viraram homens e a menina, que já tinha corpo de mulher, agora era um mulherão. Os hormônios começavam a ferver em seus corpos. Roseli não queria mais apenas uma simples amizade. Bruno e Bernardo, tampouco.

Roseli decidiu que seria ela quem acabaria com a virgindade dos amigos. Primeiro o Bruno, depois o Bernardo. Não por predileção a um ou outro, só por circunstâncias da vida mesmo. E em apenas duas noites ela não só iniciou a vida sexual de cada um deles, como também despertou uma paixão nunca imaginada no coração de ambos.

Depois daquelas noites, Roseli percebeu que a tripla amizade estava em risco e, muito mais madura, pediu que os dois não só jurassem segredo como prometessem que iriam fingir que aquelas noites jamais tivessem acontecido.

No começo tudo correu bem. Para eles a promessa era sagrada e a amizade continuou firme e forte, mesmo com os garotos secretamente apaixonados.  

O único problema foi que mais ou menos 3 meses depois do ocorrido, Roseli não conseguiu mais esconder e revelou que estava grávida. Tanto Bruno quando Bernardo ficaram em estado de choque.

E a surpresa só não foi maior quando, além de não revelar para os amigos quem era o pai da criança, a menina pediu para que, durante a gravidez, os dois não a procurassem mais.

Ambos relutaram, mas acabaram aceitando aquele estranho pedido da amiga, enquanto na intimidade, os dois tinham certeza de que eram o pai daquela criança que estava para nascer.

Não é preciso dizer que toda essa confusão fez a amizade até então inabalável, ruir. Além de se afastarem de Roseli, aos poucos Bruno e Bernardo também deixaram de se encontrar.

Os meses se passaram e quando os agora não tão amigos assim souberam que o bebê finalmente havia nascido, correram para a maternidade. Assim que chegou, Bruno encontrou com Bernardo já babando em frente à vitrine de bebês recém-nascidos.

Apesar do clima de tensão no ar, se cumprimentaram educadamente, mas sem muitas palavras. Os dois sabiam que em breve descobririam quem era o pai daquela criança.

E quando finalmente a enfermeira chegou com o bebê no colo, para o espanto geral dos que estavam ali presentes, as dúvidas sobre a paternidade se acabaram imediatamente: misteriosamente, a criança era a cara de um e o focinho do outro.

MAIS PERDIDO QUE FILHO DE PUTA EM DIA DOS PAIS

“Filho da puta!”.

O que parecia apenas uma briga de meninos se transformou em um tormento para a vida do Wilsinho.

Aquelas 11 letras pronunciadas em um momento de raiva no recreio do primeiro dia de aula fizeram o menino pensar. Naquele momento, tudo mudou. Filho da puta, tudo bem. Isso ele era mesmo e o motivo da briga era só mais uma das sacanagens que ele sempre fazia.

Isso posto, o moleque ainda tinha total clareza do ganha pão da sua mãe.

Mas daquela vez alguma coisa no xingamento soou diferente do que ele ouvia constantemente. Peraí, quem afinal seria o puto de quem ele era filho?

A partir de então, descobrir o mistério se tornou o objetivo principal na vida do garoto.

Como um bom filho da puta, chegando em casa, foi logo revirar as coisas da sua mãe, mas não achou nada que ajudasse, além de se assustar com alguns objetos fálicos. Definitivamente essa não era a melhor tática.

Escondido, fez a filhadaputagem de seguir a mãe até o seu trabalho. Voltou pra casa ainda mais assustado com o que viu, mas com a esperança de que ali encontraria alguma pista.

No dia seguinte, o garoto não teve dúvidas e logo que acordou, correu para o puteiro. Aproveitou que a casa estava fechada e entrou escondido. Foi direto para o escritório revirar o registro dos clientes da sua mãe.

Antônio, Rogerio, Felipe, Anderson, Cléber, Diogo, Marcelo, João, Tonico, Éder, Daniel, Luiz, Renato, Jorge, Jeferson, Wilson, Sebastian, Fernando, Adriano, Igor e Cláudio.

21 nomes. Ele estava perdido. Obviamente, tinham muitos outros nomes na lista, mas o garoto percebeu que aqueles eram os clientes mais fieis. E, mais importante ainda, os mais antigos.

Naquele instante, teve a certeza que o nome do seu pai estava entre aqueles 21. Uma sensação estranha tomou conta do Wilsinho.

Era isso mesmo que ele queria? Ele, que tinha vivido 14 ótimos anos sendo apenas filho da puta, precisava mesmo saber quem era seu pai? E se ele fosse um escroto? E se ele também fosse um filho da puta? E se já estivesse morto?

O menino tratou de deixar as dúvidas de lado e decidiu começar sua pequena cruzada atrás daqueles 21 nomes.

Os meses que se passaram e, em julho, Wilsinho já havia localizado 17 e descoberto que outros 3 já haviam morrido. Mas ainda faltava 1. Justamente o seu xará.

Ele fez que fez e quando agosto chegou, finalmente conseguiu localizar o último dos candidatos. Usou todo o seu poder de persuasão e convenceu cada um deles a fazer o teste de paternidade.

No segundo domingo do mês, Wilsinho reuniu todos os 18 candidatos para abrirem os testes juntos. Ansiosos e preocupados, todos fizeram o maior esforço e chegaram ao local exatamente no horário combinado. Só quem não apareceu foi o Wilsinho.

E depois de algumas horas de espera, quando, com seus envelopes nas mãos, todos os candidatos a pai se deram conta de que tinham sido sacaneados pelo moleque, só restou uma coisa a dizer.

“Filho da puta!”

QUEM FOI REI, NUNCA PERDE A MAJESTADE

Sebastião era um matador nato. Em matéria de assassinatos, um rei. Frio. Do tipo que matava por prazer. Por necessidade. Um psicopata com o demônio encarnado no corpo. Tudo o que ele tinha de crueldade, tinha de inteligência. Calculista. Matava sem deixar vestígios. Seu trabalho era perfeito.

Para o Sebastião, matar era tão necessário quanto respirar. E quando pintava o desejo, ele precisava agir. Planejava tudo com o cuidado necessário e sumia com a vítima num piscar de olhos. Eliminava as provas e seguia sua vidinha pacata, aliviado.

Por incrível que pareça, Sebastião era querido na cidade. Escondia a monstruosidade atrás de sua enorme simpatia. Ajudava velhinhas a atravessar a rua, comprava comida para os mendigos, abria a porta para as mulheres e ia à missa todo Domingo. Mas por dentro, aquele monstro estava vivo, só se preparando para mais uma carnificina.

E foi em uma dessas missas que Sebastião pisou na bola. O desejo veio e ele não conseguiu segurar. Não planejou, apenas agiu por impulso. Por necessidade. E, pior, na frente de todos.

Não se sabe se foi algo que o padre falou, mas o fato é que Sebastião matou o padre ali no altar mesmo. Aos berros, ainda dizia que agora o pregador poderia ouvir mais de perto a palavra do Senhor.

“Monstro!”, “Satanás!”, “Fiadaputa do caralho!” gritavam os moradores da cidade, ainda em estado de choque.

Sebastião foi preso em flagrante. E ainda confessou todos os seus crimes, assustando ainda mais a população. Mas foi na cadeia, ao lado dos piores criminosos existentes na face da Terra, que sua vida começou a mudar.

Primeiro entrou para a igreja com o propósito de se redimir de todos os crimes cometidos. Rezou, pediu perdão, se arrependeu. Tratava-se de um novo homem.

Já parecendo mais equilibrado, foi convidado para participar do torneio intercelas, o campeonato de futebol interno. Sebastião não só foi campeão, como também foi artilheiro e eleito o craque do torneio.

A fama de craque da cadeia logo correu pelas ruas da cidade. E depois do show de bola a vida do agora bom moço resolveu dar uma volta daquelas que só se vê em filmes. Por obra do acaso o time da cidade havia sido convidado para participar de um importante torneio regional e o técnico, sabendo das deficiências técnicas dos seus atacantes e da mudança de conduta do serial killer, começou uma campanha para que ele pudesse fazer parte da equipe.

No primeiro momento, a grande maioria da população foi contra. Era impossível um assassino daqueles se regenerar. Seis meses em cana não eram suficientes para mudar uma pessoa. Ainda mais o Sebastião.

Mas a fragilidade mostrada pelo time da cidade nos amistosos de preparação para o torneio regional começou a fazer com que as pessoas mudassem de opinião.

“Quem é craque, tem que jogar!”, “É o nosso rei!”, “Viva o Sebastião!”, gritavam os cidadãos, agora fãs daquele monstro.

Depois de muita insistência, finalmente o agora craque foi liberado para jogar.

Dito e feito. Sebastião carregou o time nas costas e, pela primeira vez na história, o time chegava à final da competição. Mais do que isso, colocava o nome da cidade em um destaque jamais imaginado.

Era a chance com a qual ele sonhava. O dia da sua redenção. Estádio lotado e a cidade inteira apoiando o maior assassino que se tinha notícia. Até os coroinhas, ainda revoltados com a morte do padre, torciam pelo craque.

Como toda final, o jogo não seria fácil. O adversário era mais experiente e jogava pelo empate.

Sebastião sabia que precisava dar tudo de si para finalmente ser perdoado, mas o gol redentor teimava em não sair. A tensão no ar era visível. E quando o árbitro se preparava para dar o sopro final em seu apito, o craque dominou a bola na entrada da área com a frieza que só um assassino pode ter. Com muita calma, ele driblou dois zagueiros e chutou encobrindo o goleiro. O tempo parecia andar em câmera lenta. A torcida prendeu a respiração. Era o gol do título. O gol que colocaria a cidade no mapa.

A torcida já comemorava o gol quando a bola explodiu no travessão e o árbitro imediatamente apitou o final de jogo.

O inacreditável aconteceu e, em um milésimo de segundo, toda a euforia se transformou em tristeza. Na arquibancada, três torcedores morreram de infartos fulminantes. Um quarto não aguentou e também morreu, ainda na ambulância.

E enquanto o time adversário comemorava o título e seus companheiros choravam ajoelhados no gramado, Sebastião sorria sozinho. Porque quem foi rei, nunca perde a majestade.